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Por que os valores medidos no campo podem esconder uma maquinaria fotossintética com elevado potencial

Ao longo do dia, a assimilação de carbono do cafeeiro frequentemente apresenta valores modestos. Em determinados períodos da manhã, pode ficar próxima de 5 µmol de CO₂ m⁻² s⁻¹, mas, especialmente após o final da manhã e durante a tarde, pode cair para valores bem inferiores.

 

À primeira vista, isso poderia indicar que o cafeeiro possui uma maquinaria fotossintética pouco eficiente.

 

O problema é que uma medição instantânea não mostra apenas aquilo que os cloroplastos conseguem fazer. Ela também reflete todas as restrições que atuavam sobre a planta naquele momento: disponibilidade de água, temperatura da folha, umidade do ar, vento, radiação, atividade das raízes e, principalmente, abertura dos estômatos.

 

A taxa medida no campo, portanto, não representa necessariamente o limite fisiológico do cafeeiro.

 

Quando o acesso ao CO₂ é facilitado, a folha consegue aumentar consideravelmente sua fotossíntese. Isso mostra que, em muitas situações, o principal problema não está na capacidade de processar carbono, mas na dificuldade de fazer o CO₂ chegar ao local onde ele será fixado.

O cafeeiro não possui necessariamente um motor fotossintético fraco. Em grande parte do dia, esse motor trabalha recebendo menos CO₂ do que poderia utilizar.

A fotossíntese observada não é igual à capacidade potencial

A fotossíntese de uma folha depende de duas condições básicas:

    1. A folha precisa possuir uma maquinaria capaz de transformar energia luminosa em energia química e incorporar o CO₂.

    2. O CO₂ precisa alcançar os cloroplastos em quantidade suficiente.

Quando uma dessas condições não é atendida, a taxa fotossintética diminui.

No cafeeiro, a segunda condição costuma ter um peso muito importante.

Um experimento realizado em lavoura, com as cultivares Catuaí e Obatã, avaliou plantas cultivadas sob concentração ambiente ou enriquecida de CO₂. O aumento da disponibilidade do gás elevou em aproximadamente 40% a assimilação diária de carbono durante o período de crescimento e enchimento dos frutos. No inverno, quando o crescimento e a demanda dos frutos eram menores, o aumento médio chegou a 56%.

Esse resultado é importante porque a maior fotossíntese ocorreu sem aumento proporcional da abertura estomática e sem evidências de que a folha tivesse reconstruído sua maquinaria bioquímica.

O aumento da concentração externa de CO₂ simplesmente criou um gradiente maior, facilitando a chegada do gás aos cloroplastos.

A folha já possuía capacidade para processar mais carbono. O que faltava, em condições normais, era maior disponibilidade de CO₂ no local onde a Rubisco trabalha.

Conceito-chave

Uma taxa fotossintética baixa não comprova, sozinha, que a folha possui baixa capacidade. Ela pode mostrar apenas que o CO₂ está encontrando dificuldade para chegar aos cloroplastos.

O caminho do CO₂ até os cloroplastos

O CO₂ presente no ar não chega diretamente à Rubisco.

Antes de ser incorporado pela fotossíntese, ele precisa percorrer um caminho:

Cada etapa oferece algum grau de resistência.

Os estômatos formam a primeira grande barreira. Quando estão abertos, permitem a entrada de CO₂, mas também favorecem a saída de vapor de água. Quando começam a se fechar para conservar água, a entrada de carbono é reduzida.

Mesmo depois de atravessar os estômatos, o CO₂ ainda precisa se deslocar pelos tecidos internos da folha até alcançar os cloroplastos. Essa segunda parte do percurso depende da chamada condutância do mesofilo.

A concentração existente nos espaços internos da folha, portanto, pode ser maior que a concentração efetivamente disponível no cloroplasto.

É nesse ponto que algumas interpretações podem se tornar enganosas. Uma análise pode sugerir que existe CO₂ dentro da folha, mas isso não significa que todo esse carbono já esteja disponível para a Rubisco.

Os estômatos são a primeira grande limitação

O cafeeiro apresenta um controle estomático relativamente conservador.

Quando a atmosfera passa a retirar água das folhas com muita intensidade, os estômatos reduzem sua abertura. Essa resposta protege a planta contra a desidratação, mas limita a entrada de CO₂.

Isso pode acontecer mesmo quando ainda existe água no solo.

A razão é que a presença de água no solo não garante que as raízes e o sistema vascular consigam transportá-la até as folhas na mesma velocidade em que a atmosfera tenta removê-la.

Em tardes quentes, secas ou com vento, a demanda atmosférica pode aumentar rapidamente. A planta responde restringindo a transpiração antes que ocorra uma perda excessiva de água.

O resultado é uma sequência fisiológica bastante comum:

Essa resposta ajuda a explicar por que o cafeeiro pode apresentar fotossíntese razoável nas primeiras horas da manhã e uma forte redução próximo ao meio-dia ou durante a tarde.

Por que o déficit de pressão de vapor é tão importante?

A demanda atmosférica por água pode ser representada pelo déficit de pressão de vapor, conhecido pela sigla DPV.

 

Em termos simples, o DPV mostra o quanto a atmosfera está capaz de retirar água das folhas. Ele aumenta quando a temperatura sobe e a umidade relativa diminui.

 

Quanto maior o DPV, maior tende a ser a perda potencial de água pela planta.

 

Uma análise publicada por DaMatta em 2025 destaca que muitas reduções da fotossíntese atribuídas diretamente ao calor podem ser, na realidade, consequência do aumento do DPV e do fechamento estomático. Em sistemas irrigados, o solo pode conter água e, ainda assim, a planta reduzir a fotossíntese durante as horas mais quentes.

 

Isso não significa que a temperatura elevada nunca danifique o cafeeiro.

 

Experimentos controlados mostram que a maquinaria fotossintética de diferentes genótipos de Coffea arabica e Coffea canephora pode manter bom funcionamento até temperaturas próximas de 37 °C quando as plantas estão aclimatadas e recebem água e nutrientes adequados. Em condições mais extremas, especialmente próximas de 42 °C ou combinadas com seca severa, começam a aparecer danos bioquímicos, fotoinibição e redução da atividade enzimática.

 

Portanto, é necessário diferenciar duas situações:

 

    • A fotossíntese diminui porque os estômatos se fecharam para conservar água.

       

    • A fotossíntese diminui porque o calor já danificou a maquinaria da folha.

Esses dois processos podem ocorrer juntos, mas não são a mesma coisa.

O mesofilo é a segunda barreira

Depois de entrar pelos estômatos, o CO₂ precisa atravessar as estruturas internas da folha.

Esse percurso inclui paredes celulares, membranas, citoplasma e o envoltório dos cloroplastos. A facilidade com que o gás realiza esse deslocamento é chamada de condutância do mesofilo.

A anatomia da folha exerce grande influência sobre esse processo.

Espessura das paredes celulares, posição dos cloroplastos, área de contato entre os espaços internos e as células, presença de espaços de ar e propriedades das membranas podem facilitar ou dificultar a difusão.

Estudos com cafeeiro mostram que a limitação estomática costuma ser a principal restrição, seguida pelas limitações do mesofilo e da própria bioquímica da folha. Também existem evidências de que a arquitetura hidráulica foliar restringe a capacidade de o cafeeiro sustentar trocas gasosas muito elevadas.

Isso ajuda a explicar por que aumentar apenas a abertura dos estômatos não eliminaria completamente a limitação.

Mesmo com o CO₂ entrando na folha, uma parte da resistência continua existindo entre os espaços internos e os cloroplastos.

Atenção técnica

O teor de CO₂ calculado dentro da folha não representa necessariamente o teor que chegou ao cloroplasto. Ignorar essa diferença pode fazer a capacidade bioquímica do cafeeiro parecer menor do que realmente é.

E a maquinaria fotossintética?

Reconhecer a importância das limitações difusivas não significa afirmar que a bioquímica nunca limita a fotossíntese.

A folha também depende de:

    • funcionamento dos fotossistemas;
    • transporte de elétrons;
    • produção de ATP e NADPH;
    • atividade da Rubisco;
    • regeneração da molécula que recebe o CO₂;
    • disponibilidade de nitrogênio, fósforo e magnésio;
    • integridade das membranas dos cloroplastos.

Sob estresse intenso ou prolongado, esses componentes podem ser comprometidos.

No entanto, os estudos indicam que as baixas taxas normalmente observadas em cafeeiros sem dano severo não são explicadas principalmente por uma Rubisco ineficiente.

Uma análise integrada de folhas cultivadas ao sol e à sombra não encontrou evidências de que a Rubisco do cafeeiro fosse inadequada. Pelo contrário, ela parece estar ajustada para trabalhar com as baixas concentrações de CO₂ que frequentemente chegam aos cloroplastos.

A maquinaria existe e funciona. O problema é que nem sempre recebe matéria-prima suficiente para operar perto de seu potencial.

O que acontece ao longo do dia?

Uma única medição pode esconder grande parte da dinâmica diária do cafeeiro.

 

Nas primeiras horas da manhã, a fotossíntese normalmente começa em valores relativamente baixos e aumenta à medida que a radiação se torna disponível. Em condições favoráveis, os maiores valores de assimilação e abertura estomática costumam ocorrer entre aproximadamente 8h e 10h.

 

A partir do final da manhã, o aumento da temperatura do ar e da folha, combinado com a redução da umidade relativa, eleva o DPV e intensifica a demanda atmosférica por água. Como resposta, os estômatos reduzem progressivamente sua abertura, limitando a entrada de CO₂ e provocando a queda da fotossíntese.

 

Em muitas situações, essa redução se prolonga durante a tarde, sem recuperação expressiva da abertura estomática ou da assimilação de carbono.

 

Em um estudo específico com três cultivares de Coffea arabica, realizado durante o período chuvoso, Ronquim et al. observaram uma forte depressão da fotossíntese, da abertura estomática e da eficiência fotoquímica próximo ao meio-dia em dias claros. Essa resposta reduziu o ganho diário de carbono em aproximadamente 70%.

 

Esse resultado demonstra que uma depressão acentuada ao meio-dia pode ocorrer sob determinadas condições ambientais. Entretanto, esse comportamento não deve ser considerado um padrão universal para o cafeeiro, pois, em muitos estudos, observa-se uma queda progressiva a partir do final da manhã, sem recuperação significativa durante a tarde.

Nesse mesmo estudo, nos dias nublados, a radiação disponível era menor, mas a demanda atmosférica por água também era mais baixa.

Em uma frase

Para o cafeeiro, não basta receber muita luz. É necessário conseguir utilizar essa luz sem interromper precocemente a entrada de CO₂.

Sol, sombra e funcionamento do dossel

O cafeeiro possui origem associada a ambientes de sub-bosque, mas isso não significa que deva ser sempre cultivado sob sombra intensa.

Folhas localizadas na parte superior do dossel recebem mais luz e normalmente apresentam maior assimilação instantânea que folhas internas. Em um estudo de campo, folhas superiores atingiram valores próximos de 4,5 µmol de CO₂ m⁻² s⁻¹, enquanto folhas inferiores ficaram próximas de 2 µmol m⁻² s⁻¹. A diferença foi explicada principalmente pela quantidade de luz recebida, e não por uma grande diferença na capacidade fotossintética das folhas.

O sombreamento moderado pode ser útil quando melhora o microclima:

    • reduz o aquecimento excessivo das folhas;
    • diminui a demanda atmosférica por água;
    • protege contra picos de radiação;
    • reduz a velocidade do vento;
    • permite que os estômatos permaneçam abertos por mais tempo.

Por outro lado, o excesso de sombra reduz a energia disponível, altera a formação de ramos produtivos e pode limitar o rendimento.

A questão não é simplesmente escolher entre sol e sombra. É equilibrar radiação, temperatura, disponibilidade de água e capacidade hidráulica da planta.

A carga de frutos também interfere

Os frutos são importantes consumidores de fotoassimilados.

Durante o crescimento e o enchimento, eles aumentam a demanda por carbono. Isso pode estimular a atividade das folhas, desde que água, nutrientes e área foliar sejam suficientes para sustentar a produção.

Em um experimento com cafeeiros cultivados no campo, plantas com carga completa de frutos e metade da área foliar apresentaram fotossíntese e abertura estomática mais de 50% superiores às plantas que tiveram todos os frutos removidos.

Seria possível imaginar que a retirada dos frutos reduziu a fotossíntese apenas porque os açúcares se acumularam nas folhas. No entanto, os pesquisadores não encontraram evidências de forte repressão da Rubisco ou de dano fotoquímico causado pelo acúmulo de carboidratos.

A redução esteve associada principalmente à menor abertura estomática e à menor disponibilidade de CO₂.

Isso mostra que a relação entre fonte e dreno pode modificar a fotossíntese por meio do controle estomático, e não apenas pela regulação direta do metabolismo do carbono.

Implicações práticas: o que isso muda no manejo do cafeeiro?

Entender que parte importante da limitação ocorre antes de o CO₂ chegar aos cloroplastos muda o foco do manejo.

Em muitas situações, o objetivo não deve ser simplesmente aumentar a capacidade máxima da folha. Deve ser criar condições para que essa capacidade seja expressa durante mais horas do dia.

Manter água disponível no volume explorado pelas raízes

Não basta molhar a superfície do solo.

A irrigação precisa alcançar a região onde se encontra a maior parte das raízes ativas e repor a água na velocidade necessária para sustentar o dossel.

Uniformidade dos emissores, profundidade molhada, textura do solo, compactação, salinidade e frequência da irrigação interferem diretamente nesse resultado.

Mesmo sob irrigação, entretanto, os estômatos podem se fechar quando a demanda atmosférica se torna muito elevada.

Preservar um sistema radicular funcional

A água precisa estar no solo, ser absorvida pelas raízes e transportada até as folhas.

Compactação, encharcamento, nematoides, doenças radiculares e desequilíbrios químicos reduzem essa capacidade. Nesses casos, a planta pode apresentar limitação hídrica mesmo em um solo aparentemente úmido.

Manejar o microclima

Cobertura do solo, arborização bem planejada, quebra-ventos, densidade de plantio e arquitetura do dossel podem reduzir picos de temperatura, vento e DPV.

 

O objetivo não é eliminar a radiação, mas evitar que o ambiente se torne tão agressivo que a planta precise fechar os estômatos durante grande parte do período luminoso.

Equilibrar área foliar e carga produtiva

Uma carga elevada de frutos aumenta a demanda por carbono.

A planta precisa possuir área foliar, água, nutrientes e raízes suficientes para sustentar esses drenos. Podas excessivas, desfolha, seca ou danos radiculares podem reduzir a capacidade de atendimento dos frutos, mesmo quando as folhas restantes apresentam elevada atividade individual.

Garantir nutrição equilibrada

A nutrição participa da formação das folhas, do crescimento das raízes, do controle osmótico, da abertura estomática e do funcionamento dos cloroplastos.

Isso não significa que aumentar indiscriminadamente a adubação elevará a fotossíntese.

Uma folha bem nutrida continuará trabalhando abaixo do potencial quando os estômatos estiverem fechados ou quando o sistema radicular não conseguir sustentar o fluxo de água.

Conclusão

O cafeeiro realmente apresenta taxas fotossintéticas relativamente baixas em muitas medições de campo. Mas esses números não devem ser interpretados automaticamente como prova de uma maquinaria fotossintética pouco eficiente.

Grande parte da limitação acontece antes que o CO₂ alcance a Rubisco.

Os estômatos reduzem a entrada de carbono para controlar a perda de água. Depois disso, o CO₂ ainda precisa vencer resistências dentro da própria folha até chegar aos cloroplastos.

Quando essa oferta é aumentada, o cafeeiro demonstra capacidade para processar mais carbono, sem precisar reconstruir completamente sua maquinaria fotossintética.

A principal oportunidade de manejo, portanto, pode estar menos em aumentar o pico máximo de fotossíntese e mais em reduzir o tempo durante o qual a planta permanece limitada.

O potencial produtivo do cafeeiro depende não apenas da capacidade de suas folhas, mas de quantas horas por dia elas conseguem permanecer hidratadas, com os estômatos funcionais e os cloroplastos abastecidos de CO₂.

Referências

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Ronquim, J. C. et al. 2006. Carbon gain in Coffea arabica during clear and cloudy days in the wet season. Experimental Agriculture, 42, 147-164. DOI: 10.1017/S0014479705003121.

AF
Sobre o autor
André Ferraz

Engenheiro Agrônomo, especialista em Fisiologia Vegetal e Nutrição de Plantas. Escreve no Planta em Resposta traduzindo ciência em raciocínio aplicável ao campo.