Entre elementos essenciais, benéficos e condicionalmente benéficos, a ciência da nutrição vegetal está revendo uma definição criada há quase um século
Silício pode representar uma parcela expressiva da matéria seca de algumas gramíneas e melhorar sua resistência a estresses, mas não aparece na lista clássica de elementos essenciais.
Níquel, por outro lado, é requerido em quantidades extremamente pequenas e durante décadas não foi reconhecido como nutriente. Hoje, é considerado essencial.
Cobalto pode ser decisivo para a fixação biológica de nitrogênio em leguminosas, mas isso não significa necessariamente que ele seja um elemento essencial para o metabolismo da própria planta.
Selênio pode aumentar crescimento ou reprodução em determinadas condições e se tornar tóxico quando sua concentração aumenta.
Alumínio é tóxico para grande parte das culturas, especialmente em solos ácidos, mas pode estimular espécies adaptadas a esses ambientes.
E o iodo, durante muito tempo tratado apenas sob a perspectiva da biofortificação, já foi associado a crescimento, floração, expressão gênica e até incorporação em proteínas vegetais.
Então surge uma pergunta aparentemente simples:
O que é, afinal, um nutriente para as plantas?
Durante grande parte da história moderna da nutrição vegetal, a resposta esteve ligada a uma palavra: essencialidade.
Se a planta não consegue completar seu ciclo sem determinado elemento, se nenhum outro elemento consegue substituí-lo e se ele participa diretamente do metabolismo, então esse elemento é essencial.
Essa estrutura conceitual foi extremamente poderosa. Foi com ela que a ciência conseguiu separar elementos indispensáveis daqueles simplesmente encontrados nos tecidos vegetais.
Mas a agricultura do século XXI começou a apresentar situações que não cabem confortavelmente nessa divisão binária.
Um elemento pode não ser necessário em todas as espécies e, ainda assim, aumentar crescimento sob seca. Pode melhorar a resistência a doenças. Pode substituir parcialmente outro nutriente. Pode participar de uma simbiose. Pode aumentar a reprodução em determinado ambiente.
Em 2022, Brown, Zhao e Dobermann defenderam uma ampliação do conceito de nutriente vegetal para incluir tanto elementos essenciais quanto elementos capazes de produzir benefícios demonstráveis ao crescimento, à eficiência no uso de recursos, à tolerância ao estresse ou à qualidade do produto colhido.
Em agosto de 2026, um grupo internacional de pesquisadores propôs um refinamento dessa ideia. Em vez de simplesmente ampliar o conceito de nutriente, eles defenderam uma definição centrada na planta, distinguindo elementos essenciais de elementos condicionalmente benéficos e exigindo que o efeito positivo esteja ligado ao crescimento, desenvolvimento ou reprodução da planta em condições especificadas.
A discussão, portanto, deixou de ser apenas:
“Este elemento é essencial ou não?”
“Para qual planta? Em qual ambiente? Em qual dose? Para qual processo fisiológico? E com qual evidência?
Neste artigo, você vai entender
- como surgiram os critérios clássicos de essencialidade;
- por que existem 17 elementos essenciais, mas apenas 14 nutrientes minerais essenciais;
- por que macronutriente não significa “mais importante”;
- como o níquel mostrou que a lista de nutrientes pode mudar;
- qual é a diferença entre essencial e condicionalmente benéfico;
- por que Si, Na, Se, Co e Al desafiam classificações simples;
- por que o iodo permanece em uma região particularmente interessante do debate;
- quais evidências deveriam ser exigidas antes de chamar um elemento de nutriente;
- o que essa discussão muda na interpretação agronômica de fertilizantes e bioestimulantes.
De onde veio a ideia de elemento essencial?
A nutrição mineral das plantas começou a se consolidar experimentalmente no século XIX, quando os estudos em soluções nutritivas demonstraram que as plantas poderiam completar seu desenvolvimento utilizando água, CO₂, luz e um conjunto definido de elementos minerais.
Mas identificar um elemento presente na planta não era suficiente.
O problema era separar:
elementos simplesmente absorvidos
de
elementos biologicamente indispensáveis.
Em 1939, Daniel Arnon e Perry Stout publicaram um trabalho que se tornaria um marco da nutrição vegetal. O estudo discutia particularmente a essencialidade do cobre, mas sua contribuição mais duradoura foi estabelecer critérios para determinar quando um elemento poderia ser considerado essencial.
A lógica clássica pode ser resumida em três condições:
- Na ausência do elemento, a planta não consegue completar adequadamente seu ciclo de vida.
- A função do elemento é específica e não pode ser completamente substituída por outro.
- O elemento participa diretamente do metabolismo ou de uma estrutura necessária ao funcionamento da planta.
Essa definição resolvia um problema científico importante.
Não bastava demonstrar que adicionar determinado elemento aumentava biomassa. Era necessário mostrar que sua ausência criava uma deficiência específica e que sua reposição restaurava a função.
Por que provar essencialidade é tão difícil?
Parece simples retirar um elemento da solução nutritiva e observar a planta.
Na prática, não é.
Alguns micronutrientes são necessários em concentrações extremamente pequenas. Quantidades presentes como contaminantes na água, nos sais utilizados para preparar a solução, nos recipientes, nas sementes ou até no ambiente podem ser suficientes para esconder uma deficiência.
Isso ajuda a explicar por que alguns elementos foram reconhecidos muito depois de N, P, K ou Mg.
O exemplo mais marcante é o níquel.
Durante muito tempo, as plantas recebiam Ni suficiente por contaminação ambiental para que sua deficiência raramente aparecesse.
Estudos com soja mostraram posteriormente que a privação de Ni provocava acúmulo de ureia nos tecidos porque a urease, enzima responsável por metabolizar ureia, depende desse elemento.
Em 1987, experimentos extremamente controlados com cevada mostraram que plantas cultivadas com concentrações praticamente desprezíveis de Ni produziam sementes com baixa germinação e, em deficiência mais severa, sementes inviáveis. A reposição do elemento restaurava o desenvolvimento. O Ni passou então a integrar a lista dos micronutrientes essenciais.
O que essa história ensina?
A lista de nutrientes essenciais não foi entregue pronta. Ela foi construída à medida que os métodos experimentais se tornaram capazes de excluir contaminações e revelar funções que antes permaneciam escondidas.
Isso também significa que novas evidências podem continuar refinando a classificação dos elementos.
Afinal, são 17 ou 14 nutrientes essenciais?
As duas respostas podem estar corretas, dependendo da pergunta.
Quando falamos em elementos essenciais para as plantas, a lista tradicional possui 17:
C, H, O, N, P, K, Ca, Mg, S, Fe, Mn, Zn, Cu, B, Mo, Cl e Ni.
Carbono, hidrogênio e oxigênio são absolutamente essenciais, mas a planta os obtém predominantemente do CO₂ e da água.
Quando a discussão se restringe aos elementos minerais essenciais, como faz a proposta de Gerendás e colaboradores de 2026, temos 14:
Macronutrientes minerais
N, P, K, Ca, Mg e S
Micronutrientes minerais
Fe, Mn, Zn, Cu, B, Mo, Cl e Ni.
Essa diferença evita uma confusão frequente.
Carbono é essencial, mas normalmente não é chamado de nutriente mineral.
Macro e micronutriente não significam importância maior ou menor
A classificação se refere principalmente à quantidade requerida pela planta, não ao grau de importância.
O nitrogênio é absorvido em grandes quantidades porque participa de proteínas, ácidos nucleicos, clorofila e inúmeras estruturas.
O níquel é necessário em uma escala muito menor, mas uma planta verdadeiramente deficiente em Ni também apresenta uma falha metabólica específica.
Portanto:
macronutriente ≠ mais importante
e
micronutriente ≠ menos importante.
A concentração necessária apenas reflete quanto daquele elemento é requerido para cumprir sua função.
Então todo elemento que melhora a planta é nutriente?
Aqui começa a discussão moderna.
Imagine dois tratamentos:
Tratamento A: sem determinado elemento, a planta não consegue produzir sementes viáveis.
Tratamento B: a planta consegue completar normalmente seu ciclo sem o elemento, mas quando ele é fornecido durante a seca sua biomassa aumenta 15%.
Os dois elementos deveriam receber a mesma classificação?
Historicamente, não.
O primeiro poderia ser considerado essencial.
O segundo seria chamado de benéfico.
O problema é que essa palavra reúne situações biologicamente muito diferentes.
Um elemento pode melhorar o desempenho:
- apenas em uma determinada espécie;
- apenas sob deficiência de outro nutriente;
- apenas durante estresse hídrico;
- apenas em determinada faixa de concentração;
- apenas porque reduz a toxicidade de outro elemento.
Foi justamente para dar mais precisão a essas situações que o artigo publicado em 2026 propôs a expressão:
elemento condicionalmente benéfico
A proposta define como essencial um elemento cuja privação prejudique crescimento, desenvolvimento ou reprodução. Já um elemento seria condicionalmente benéfico quando melhora esses processos em determinada espécie e sob condições especificadas, desde que exista uma função biologicamente estabelecida relacionada ao benefício.
Essa mudança parece semântica, mas é importante.
O benefício deixa de ser uma característica absoluta do elemento.
Ele passa a ter a forma:
elemento + espécie + dose + ambiente + processo fisiológico
Duas propostas modernas, e uma diferença importante
Em 2022, Brown, Zhao e Dobermann defenderam uma definição ampla:
um nutriente mineral poderia ser um elemento essencial ou benéfico ao crescimento, desenvolvimento ou às características de qualidade da planta ou do produto colhido. A proposta também incluía benefícios sobre eficiência no uso de recursos, tolerância ao estresse, produtividade e resistência a pragas e doenças.
A proposta de 2026 concorda que limitar toda a nutrição vegetal apenas à essencialidade clássica deixa importantes efeitos biológicos de fora.
Mas estabelece uma fronteira mais restritiva.
Os autores argumentam que “qualidade” não deveria, sozinha, definir um nutriente vegetal, porque qualidade depende do objetivo e de quem avalia o produto. Além disso, uma resposta ao estresse pode aumentar determinadas concentrações sem melhorar o desempenho da planta.
Imagine uma situação em que seca reduz a massa de um fruto, mas aumenta sua concentração de açúcares.
O °Brix pode subir.
Isso significa que o tratamento nutricional melhorou a planta?
Não necessariamente.
O aumento pode ter ocorrido simplesmente porque existe menos água ou menos biomassa diluindo o açúcar.
Da mesma maneira, estresse pode aumentar fenólicos, pigmentos ou determinados compostos de defesa.
Mais metabólito não significa automaticamente melhor nutrição.
Conceito-chave
Para definir um elemento a partir da perspectiva da planta, a resposta precisa estar ligada ao seu crescimento, desenvolvimento, reprodução ou funcionamento biológico, não apenas a uma característica comercial isolada.
Os elementos podem ser organizados em três grandes grupos
A proposta publicada em 2026 coloca explicitamente Na, Si, Co, Al e Se entre os elementos condicionalmente benéficos.
O iodo merece tratamento separado porque já existem evidências experimentais de função nutricional, mas ele não foi incluído nessa lista de elementos condicionalmente benéficos proposta pelos autores em 2026.
Silício: muito importante sem ser essencial para todas as plantas
Poucos elementos mostram tão bem a diferença entre importância agronômica e essencialidade quanto o silício.
Arroz e outras gramíneas podem acumular quantidades muito elevadas de Si.
O elemento pode:
- aumentar resistência mecânica;
- reduzir acamamento;
- modificar interação com patógenos e herbívoros;
- contribuir para tolerância a metais, salinidade e outros estresses;
- alterar propriedades da superfície foliar.
Além disso, as plantas possuem sistemas específicos de transporte.
Em arroz, o transportador Lsi1 permite a entrada de ácido silícico nas células radiculares e Lsi2 participa de sua saída em direção à estela, criando um sistema altamente eficiente de aquisição.
A existência de transportadores específicos mostra forte adaptação evolutiva ao uso do Si.
Mas isso não resolve automaticamente a questão da essencialidade.
A maioria das plantas consegue completar seu ciclo sem Si em condições controladas.
Por isso, na proposta de 2026, o silício continua classificado como condicionalmente benéfico.
Ter transportadores específicos e grande efeito agronômico não é, isoladamente, suficiente para transformar um elemento em essencial.
Sódio: tóxico, benéfico ou nutriente?
Pode ser os três, dependendo da planta e da concentração.
Para a maioria das plantas terrestres, Na⁺ não é requerido para completar o ciclo.
Em algumas espécies C₄, entretanto, pequenas quantidades de Na participam do transporte de piruvato e foram historicamente interpretadas como uma exigência nutricional específica. O sódio também pode substituir parcialmente K em funções osmóticas em determinadas espécies e ser particularmente importante para halófitas.
Mas aumentar a concentração muda completamente a resposta.
O mesmo Na⁺ pode provocar:
- estresse osmótico;
- competição com K;
- desequilíbrio iônico;
- redução do crescimento.
É justamente esse comportamento dependente de espécie e condição que levou a proposta de 2026 a enquadrá-lo como condicionalmente benéfico em uma classificação geral das plantas vasculares.
Selênio: o exemplo clássico de uma janela entre benefício e toxicidade
O selênio não é reconhecido como elemento essencial para as plantas superiores.
Ele compartilha parte das vias de absorção e metabolismo do enxofre e pode ser incorporado em compostos contendo Se.
Em baixas concentrações, há trabalhos mostrando benefícios em:
- crescimento;
- metabolismo antioxidante;
- tolerância a estresses;
- reprodução.
Em concentrações maiores, o mesmo elemento se torna tóxico.
Um experimento com Brassica rapa é particularmente ilustrativo.
A aplicação de uma pequena quantidade de Se não aumentou a biomassa total, mas foi associada a 43% mais produção de sementes. O estudo forneceu evidência de benefício reprodutivo sem demonstrar que Se fosse indispensável para a planta.
Esse é praticamente o conceito de benefício condicional em ação.
Sem Se: a planta vive e se reproduz.
Com Se adequado naquele contexto: determinado componente do desempenho melhora.
Com Se excessivo: surgem efeitos tóxicos.
Cobalto: essencial para quem?
O cobalto cria uma questão conceitual particularmente interessante na soja e em outras leguminosas.
Bactérias simbióticas utilizam Co na formação de cobalaminas e em processos associados ao funcionamento eficiente da simbiose.
Assim, deficiência de Co pode reduzir a fixação biológica de nitrogênio e prejudicar fortemente uma leguminosa dependente de N₂ atmosférico.
Mas existe uma diferença importante:
o requisito bioquímico primário é do microrganismo simbionte, e não de uma enzima vegetal equivalente à urease dependente de Ni.
Por isso, em uma definição estritamente centrada na planta, Co não é colocado junto aos elementos minerais essenciais. A classificação proposta em 2026 é de elemento condicionalmente benéfico.
Essa distinção também evita confundir Co e Ni.
Experimentos demonstraram que o Co não substitui Ni na ativação da urease vegetal.
Na agricultura, portanto, o Co pode ser extremamente importante para soja.
Mas importância agronômica e essencialidade bioquímica universal não são sinônimos.
Alumínio: quando um elemento tóxico passa a beneficiar a planta
Para culturas sensíveis em solos ácidos, Al³⁺ é uma das principais restrições ao crescimento radicular.
Isso torna estranho encontrá-lo em uma discussão sobre elementos benéficos.
Entretanto, algumas espécies evoluíram em ambientes ácidos ricos em Al e apresentam respostas completamente diferentes.
Em um experimento comparando várias espécies, algumas plantas adaptadas a baixo pH apresentaram crescimento estimulado pelo fornecimento de Al. Melastoma malabathricum, Hydrangea macrophylla, arroz e outras espécies apresentaram respostas positivas em determinadas condições.
Isso não transforma Al em recomendação nutricional para milho, soja ou feijão.
Mostra exatamente por que a palavra condicionalmente é necessária.
Um elemento pode ser tóxico para uma espécie e metabolicamente útil para outra.
E o iodo?
Talvez seja atualmente um dos casos mais interessantes na fronteira da nutrição vegetal.
Experimentos extremamente controlados com Arabidopsis thaliana procuraram minimizar a contaminação natural por iodo da solução nutritiva.
Quando pequenas quantidades foram fornecidas, ocorreram alterações como:
- maior biomassa em determinados tratamentos;
- antecipação do florescimento;
- regulação específica de genes ligados a respostas ao ambiente;
- incorporação de iodo em proteínas.
Os pesquisadores também identificaram peptídeos iodados em proteínas de raízes e folhas de diferentes conjuntos de dados proteômicos.
Isso fornece evidências mais interessantes do que simplesmente observar que “iodo aumentou biomassa”.
Existe incorporação biológica e alteração específica do metabolismo.
Mas ainda há perguntas importantes:
- a iodação das proteínas é necessária para sua função?
- a planta realmente perde uma função indispensável em ausência completa de I?
- o efeito ocorre consistentemente em ampla diversidade de espécies?
- existe um mecanismo bioquímico cuja ausência determine uma deficiência específica?
Por enquanto, é mais prudente tratar o iodo como um elemento com fortes evidências de papel nutricional ou benéfico emergente, mas cuja classificação definitiva ainda não alcançou o mesmo consenso dos elementos essenciais.
Essa cautela é especialmente importante porque o próprio artigo de 2026 inclui Na, Si, Co, Al e Se entre os condicionalmente benéficos, mas não coloca o iodo nessa relação.
Então como provar que um elemento é realmente um nutriente?
Esse talvez seja o ponto mais importante de toda a discussão.
Não basta:
aplicar o elemento e medir uma resposta.
Uma planta submetida a um composto tóxico em baixa dose também pode ativar antioxidantes, fenólicos e genes de defesa.
Isso é uma resposta biológica.
Não é necessariamente nutrição.
Uma evidência robusta deveria construir uma sequência.
1. Remover verdadeiramente o elemento
O experimento precisa controlar contaminações da água, reagentes, sementes, substrato e ambiente.
2. Demonstrar uma alteração reprodutível
A ausência ou presença deve produzir resposta consistente.
3. Fazer a reposição
Reintroduzir o elemento precisa restaurar ou melhorar o processo avaliado.
4. Identificar o mecanismo
A resposta deve estar ligada a uma função biológica plausível.
5. Demonstrar desempenho
O efeito precisa chegar a:
crescimento, desenvolvimento ou reprodução.
Não basta modificar apenas um biomarcador.
6. Definir o contexto
Para elementos não essenciais, é necessário esclarecer:
- espécie;
- genótipo;
- dose;
- ambiente;
- estresse;
- disponibilidade dos nutrientes essenciais.
7. Separar benefício de hormese ou toxicidade
A ativação de defesas por uma dose subletal não deve ser automaticamente interpretada como necessidade nutricional.
Uma curva dose-resposta ajuda a entender os elementos benéficos
Os elementos essenciais e condicionalmente benéficos podem produzir curvas experimentais bastante diferentes.
Para um nutriente essencial, existe uma região de deficiência.
À medida que o fornecimento aumenta:
Já para um elemento condicionalmente benéfico, a planta pode apresentar crescimento normal mesmo quando sua concentração é extremamente baixa.
Em determinada condição ambiental, porém, aparece uma janela de benefício:
Se, por exemplo, Se melhora determinada resposta antioxidante sob seca, isso não significa que uma planta sem Se esteja nutricionalmente deficiente em condições normais.
Essa diferença é fundamental para a recomendação agronômica.
Implicações práticas: o que isso muda no manejo nutricional?
A primeira consequência é separar três perguntas.
1. A planta precisa do elemento?
Para N, P, K, Mg, B, Zn, Ni e os demais elementos essenciais, existe uma exigência biológica definida.
O manejo deve buscar impedir que o suprimento caia abaixo da faixa necessária.
2. O elemento pode melhorar determinada condição?
Essa é a pergunta adequada para Si, Se, Na, Co ou outros elementos condicionalmente benéficos.
Aqui a recomendação precisa especificar o contexto.
Não basta dizer:
É muito mais informativo afirmar:
“Nesta cultura, sob esta condição de estresse e com esta disponibilidade inicial de Si, o fornecimento aumentou determinado componente de desempenho.”
3. O efeito observado representa realmente benefício para a planta?
Aumento de:
- antioxidantes;
- fenólicos;
- prolina;
- enzimas de defesa;
- expressão de genes;
- concentração de açúcares;
não comprova isoladamente benefício nutricional.
A sequência deveria continuar:
Isso também muda a interpretação dos fertilizantes
A definição de nutriente não é apenas uma discussão acadêmica.
Ela influencia:
- pesquisa;
- legislação;
- registro de fertilizantes;
- desenvolvimento de produtos;
- posicionamento comercial;
- recomendação técnica.
Essa é uma das razões pelas quais o debate atual se tornou tão importante. O artigo de 2026 destaca que definições excessivamente amplas podem permitir alegações pouco fundamentadas, enquanto definições restritas demais podem impedir o reconhecimento de efeitos biológicos legítimos de elementos benéficos.
Para o agrônomo, uma regra simples ajuda:
A presença de um elemento em uma formulação não significa que a cultura precise dele. E a existência de uma resposta fisiológica não significa automaticamente que ele seja um nutriente essencial.
Erros comuns de interpretação
“Se aumenta produtividade, é nutriente essencial”
Não. O aumento pode caracterizar benefício condicional.
“Se não é essencial, não tem importância agronômica”
Também não. Silício é o exemplo mais evidente de que um elemento pode ter enorme relevância agronômica sem essencialidade universal.
“Existe um transportador específico, então o elemento é essencial”
Não necessariamente. Transportadores demonstram que a planta desenvolveu mecanismos para absorver ou controlar determinado elemento, mas não provam que sua ausência impeça o funcionamento da planta.
“Se ativa antioxidantes, a planta precisava dele”
Não obrigatoriamente. A própria exposição a um estressor pode ativar sistemas antioxidantes.
“Cobalto é essencial para a soja, portanto é elemento essencial da planta”
É uma simplificação. Co é decisivo para a simbiose fixadora de N, mas a classificação centrada na fisiologia vegetal o coloca entre os elementos condicionalmente benéficos.
“Iodo já é o 18º elemento essencial”
As evidências são interessantes, mas essa conclusão ainda é prematura.
“Qualidade maior sempre significa planta melhor nutrida”
Não. Concentração de determinado composto pode aumentar simplesmente porque crescimento ou teor de água diminuíram.
Conclusão
Durante décadas, responder à pergunta “o que é um nutriente vegetal?” parecia relativamente simples.
Nutriente era praticamente sinônimo de elemento essencial.
Os critérios de Arnon e Stout foram fundamentais porque estabeleceram um padrão rigoroso: não bastava encontrar um elemento na planta ou observar uma resposta ao fornecê-lo. Era necessário demonstrar uma necessidade biológica específica.
Essa estrutura permitiu consolidar os elementos essenciais e, décadas depois, incorporar o níquel quando evidências experimentais suficientemente robustas demonstraram sua indispensabilidade.
Mas a fisiologia vegetal revelou uma camada adicional.
Silício, sódio, selênio, cobalto e alumínio podem modificar profundamente o desempenho das plantas, embora seus benefícios dependam da espécie, da dose e do ambiente. A classificação de elementos condicionalmente benéficos reconhece essa importância sem apagar a diferença entre benefício e essencialidade.
O iodo mostra que a fronteira continua aberta. Há evidências de respostas específicas, incorporação em proteínas e melhora de crescimento, mas ainda não existe consenso para colocá-lo no mesmo nível dos nutrientes minerais essenciais.
Talvez, portanto, a pergunta mais útil não seja mais apenas:
“Esse elemento é nutriente.”
A planta precisa dele? Qual função ele exerce? Em qual espécie? Em qual ambiente? Em qual concentração? E o benefício continua existindo quando o experimento é rigorosamente controlado?
Essa mudança de perspectiva torna a nutrição vegetal mais precisa.
E também mais interessante.
Um elemento não se torna importante porque recebeu o rótulo de nutriente. Ele recebe uma classificação porque conseguimos demonstrar, com evidências, o que sua presença ou ausência realmente muda na vida da planta.
Em cinco pontos
- Existem 17 elementos essenciais quando C, H e O são incluídos, mas 14 elementos minerais essenciais.
- Macro e micronutriente indicam quantidade requerida, não importância fisiológica.
- A lista de elementos essenciais pode evoluir, como demonstrou a inclusão do Ni.
- Si, Na, Se, Co e Al são classificados em uma proposta recente como elementos condicionalmente benéficos.
- Iodo possui evidências nutricionais interessantes, mas sua classificação definitiva ainda permanece em debate.
Perguntas frequentes
Quantos nutrientes essenciais as plantas possuem?
São normalmente citados 17 elementos essenciais: C, H, O e 14 elementos minerais. Quando a expressão utilizada é “nutrientes minerais essenciais”, a lista possui 14 elementos.
Qual foi o último elemento reconhecido como essencial?
O níquel foi incorporado após experimentos demonstrarem seu papel na urease e a incapacidade de plantas severamente privadas de Ni produzirem sementes normalmente viáveis.
Silício é nutriente essencial?
Não para a generalidade das plantas vasculares. Apresenta fortes benefícios em diversas espécies, especialmente gramíneas, e é classificado como condicionalmente benéfico na proposta de 2026.
Cobalto é essencial para a soja?
É fundamental para o funcionamento eficiente da simbiose fixadora de nitrogênio, mas uma classificação centrada na própria planta o considera condicionalmente benéfico, e não um elemento mineral essencial universal.
Selênio é nutriente das plantas?
Não é considerado elemento essencial para plantas superiores, mas baixas concentrações podem beneficiar determinadas espécies e condições.
Iodo pode ser considerado nutriente vegetal?
Há evidências experimentais de crescimento, regulação gênica e incorporação do iodo em proteínas vegetais, mas ainda não há consenso equivalente ao existente para os 14 elementos minerais essenciais.
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